1.4 A moda e o indivíduo

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A psicóloga e escritora Pascale Navarri (2010) aponta que a evolução da moda está intimamente ligada a sua associação com o comportamento psicológico do indivíduo, ao argumentar que o modismo está intimamente vinculado aos mecanismos do inconsciente humano, os quais estão atuantes desde o momento do nascimento. “A primeira etapa da infância, por exemplo, quando o bebê é a estrela do seu próprio show diante do fascínio dos pais, familiares e amigos é uma comprovação comportamental.” (2010, p.65). A autora recorre ao narcisismo como um dos elementos da construção de identidade através do olhar e dessa relação entre o prazer de ver e ser visto dentro do universo da moda.

Pascale (2010) coloca a predominância da linguagem visual sobre qualquer outra expressão do pensamento na interação com o outro como ponto de partida, e dessa relação identificamos que o olhar tem importância fundamental no nascimento do prazer em se exibir diante dos demais.

“Essa busca do ser humano em conseguir a atenção alheia é incessante. É assim que a moda se torna um instrumento de renovação constante, através da possibilidade de se fazer diferente e, assim, encontrar em meio à uniformidade social, a desejada diferença física e o destaque pessoal.” (NAVARRI, 2010, p.73).

Considerando que, dentro de um cenário contemporâneo de vida caótica e ágil, estamos inseridos na era da informação e vivemos, a todo instante, articulando inúmeros personagens. Ao analisarmos esse fato constatamos que, hoje, o ser humano assume vários papéis na sociedade, e podemos observar que a indumentária de um indivíduo exerce papel fundamental nessa adequação, ao representar, esteticamente, esses papéis. Navarri (2010) acredita que podemos enxergar dentro do fenômeno da moda, a manifestação do “teatro” da vida contemporânea:

“O lado efêmero daquilo que esta na moda e dá a essa atividade uma grande aproximação com o jogo: vamos brincar de se vestir de princesa ou de motoqueira, mas talvez, por um momento apenas. Muitas mulheres são sensíveis a esse aspecto profundamente lúdico da moda que, para continuar a sê-lo, deve ser reversível como um jogo satisfatório, que podemos deter quanto desejarmos, para recomeçá-lo de outra forma”. (2010, p. 48).

O significado da moda liga-se diretamente a configuração da identidade pessoal. Assumimos uma determinada construção do “eu” com características próprias no estilo de vida que vivemos expostas na maneira que nos vestimos e nos apresentamos para a sociedade. Na era atual a busca dessa identidade pessoal é refletida em um projeto corporal, o corpo tem se tornado cada vez mais o objeto de compreensão daquilo que somos.

Segundo o crítico Raymond Williams (1961, p.57), a cultura é “o corpo do trabalho imaginativo” em que se registra a experiência humana. O corpo, enquanto meio de propagação da identidade cultural, por exemplo, “necessita de revestir-se com as representações significativas de sua cultura, de forma a interagir e representá-la em seus anseios, concepções, angustias e projeções.” (Castilho, 2004, p.131). Representando então, o corpo, uma visão de padrões culturais de determinados grupos sociais.

“O ego é constituído em grande parte por meio da apresentação do corpo. É possível ver isso em relação a várias práticas, como o ascetismo ou a dieta, que outrora tinham uma finalidade mais espiritual, mas agora tem a ver principalmente com a moldagem do corpo”, (SVENDSEN,2010, p.84).

A relação do ser com sua aparência está cada vez mais exigente, de acordo com Guillaume e Veillon (2007),

“O individuo contemporâneo possui um domínio cada vez maior sobre seu corpo graças à questão exaltada do individualismo narcísico que contribui assim a transformar a representação corporal continuamente em busca de uma melhor encenação de si.” (GUILLAUME e VEILLON, 2007, p.87).

Por isso, nesse ambiente em que o corpo apresenta-se como projeto de imagem singular e objeto de representação, é importante analisar como se estabelece a constituição da imagem feminina, baseada cada vez mais em um modelo de mulher ideal veiculado pela mídia e pelo universo fashion [9], fenômeno capaz de interferir na identidade e na auto estima de inúmeros jovens e adultos.

Dessa forma, a busca pela identidade, a descoberta e a apresentação de si estão entrelaçadas à moda em um jogo de construção imagética. A representação de “corpo” depende de como a moda se faz dominante na época. Os estereótipos determinados pela sociedade e propagados pela mídia são incorporados à indústria da moda. Costumamos, não erroneamente, associar nossa aparência física com nosso modo de vida, esse é o conceito que alimenta a moda, “somos construtores hiperativos de estilos de vida, numa tentativa de formar significado e identidade” (SVENDSEN, 2010, p.160).

De acordo com o mesmo autor (2010), é possível acreditar que por causa do domínio exercido pelo individualismo sobre nós, vivemos em uma busca incessante pela auto realização. Que através dessa busca de valores simbólicos em determinadas coisas, podemos construir uma identidade. O autor ainda afirma que, a moda contribui, essencialmente, para a formação da identidade do indivíduo. Valores e identidades, segundo Svendsen ao citar Taylor, são algo que deve ser escolhido pelo indivíduo:

“Vista assim, a identidade torna-se algo que precisa ser criado, e essa criação se funda numa interpretação de quem somos e numa avaliação forte de quem deveríamos ser. Mas com base em que padrões deve essa avaliação ser empreendida quando as estruturas se tornaram problemáticas? Deveríamos de qualquer maneira tentar realizá-la com base numa compreensão do que significa ter um eu que pode viver uma vida plenamente digna”. (2010, p. 170).

É possível concluir que o corpo funciona como o suporte da construção da comunicação não-verbal, e dessa forma, se apresenta como veículo de significação primordial nas projeções de padrões culturais dos grupos que nos inserimos durante o cotidiano. Káthia Castilho (2004, p. 64) nos diz que “o corpo é um dos canais de materialização do pensamento, do perceber e do sentir circundante. É o responsável por conectar o ser com o mundo que este habita”.

Precisamos, como unidade, estar representados no todo das instituições que fazemos parte, seja na igreja, no trabalho, na faculdade, com a família ou com os amigos. Segundo Frédéric Godart, em seu livro Sociologia da moda, “a moda é aquilo que liga e reconcilia o individual e o coletivo, aquilo que permite que o indivíduo faça valer suas preferências dentro de um âmbito coletivamente determinado” (2010, p.29). O ato da interação social utiliza a indumentária como constituinte e selecionadora dos indivíduos como membros de determinados grupos. Construímos, ao mesmo tempo, dentro da nossa identidade uma identificação individual e/ou coletiva.

Barnard (2003, p. 28), contribui para essa linha de pensamento ao citar que “as pessoas parecem precisar ser ao mesmo tempo sociáveis e individualistas, e a moda e a indumentária são formas pelas quais esse complexo conjunto de desejos e exigências pode ser negociado”. Todos procuram através do corpo e da imagem do mesmo transmitir mensagens de como são de fato, ou como gostariam que fossem percebidos.

Roche (2007) coloca que a roupa é um tipo de máscara, em determinado momento revela ou esconde a posição social do indivíduo. Isso se da por causa das diversas transformações que ocorrem de tempos em tempos na forma como a sociedade se veste. É o tempo investido pela sociedade em se diferenciar de determinados grupo que gera a inversão de valores tão questionada na moda, a aparência passa a ser mais importante do que o ser, os pensamentos, as atitudes, e o próprio indivíduo.

Na moda, “as linguagens são diversas, os códigos são vários, mas a vontade é uma só: diferenciar-se” (BRAGA, 2008, p.15). Analisando os indivíduos em sociedade, é evidente a buscam pelo novo, pela diferença, e também pelo desejo de alcançar os grupos dominantes. Já os grupos dominantes buscam diferenciar-se, e assim o sistema da moda funciona.


[9] Tradução literal: está na moda.

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