1.2 Origem

evolução origem da vida planeta terra

 

No final da Idade Média, no período compreendido entre 1340 e 1350, burgueses e nobres travaram uma marcante disputa social justificada pelo reconhecimento destinado a cada classe. Ambos buscavam notoriedade e ostentação através do modo de vida, da apreciação de artes, das vestimentas importadas e tendências comportamentais,

“Os ricos comerciantes procuravam pelos privilégios antes restritos à nobreza, e podiam pagar por isso. As grandes navegações buscavam rotas para as especiarias do oriente e também outras fontes de riqueza. Nestas condições favoráveis, a moda cresceu em sofisticação e as suas mudanças se tornaram cada vez mais frequentes.” (POLLINI, 2009).

Filósofo francês, Gilles Lipovetsky afirma em O Império do Efêmero que os movimentos vividos na Idade Média foram determinantes para o surgimento da moda:

“Durante dezenas de milênios, a vida coletiva se desenvolveu sem culto das fantasias e das novidades, sem a instabilidade e a temporalidade efêmera da moda, o que certamente não quer dizer sem mudança nem curiosidade ou gosto pelas realidades do exterior. Só a partir do final da Idade Média é possível reconhecer a ordem própria da moda, a moda como sistema, com suas metamorfoses incessantes, seus movimentos bruscos, suas extravagâncias. A renovação das formas se torna um valor mundano, a fantasia exibe seus artifícios e seus exageros na alta sociedade, a inconstância em matéria de formas e ornamentações já não é exceção mas regra permanente: a moda nasceu.” (LIPOVETSKY, 2009, p.24).

 Intimamente associada com o surgimento das cidades e com a classe média em ascensão, a chamada burguesia, a moda era uma lógica social, o vestuário estava diretamente ligado ao poder aquisitivo das classes. Não que hoje seja diferente, a vestimenta ainda condiz com a condição financeira daqueles que a adquirem, marcas e grifes costumam segregar o público da indústria da moda através dos preços pelos quais as peças são adquiridas, acostumamo-nos com um sistema que restringe a moda a desfiles, tendências e modismos. Mas o conceito de moda se difere do popular conceito empregado no adorno. Ele vai além da vestimenta a partir do momento que envolve modos de vida, comportamento e comunicação.

“A moda passou por várias transformações, muitas vezes seguindo as mudanças físicas e principalmente sociais que ocorreram dentro de um determinado período. A moda pode ser considerada o reflexo da evolução do comportamento. Uma espécie de retrato da comunidade. É uma linguagem não verbal com significado de diferenciação. Instiga novas formas de pensar e agir” (MORAES, 2008, p.1).

As modificações sociais que se perpetuaram da metade do século XIV à metade do século XIX, asseguraram a identidade da moda. Normas, atitudes, valores, e comportamentos individuais e coletivos tornaram-se variantes da moda e consolidaram sua fase inaugural. Neste período, “a moda já revela seus traços sociais e estéticos mais característicos, mas para grupos muito restritos que monopolizam o poder de iniciativa e de criação. Trata-se do estágio artesanal e aristocrático da moda.” (LIPOVETSKY, 2009, p.27). Como conceitua Pollini,

“O século XIX começou, portanto, como um novo renascimento. O conceito de rapidez e velocidade se instalava, e as maneiras de pensar, de vestir e de se divertir se modificavam. Estava pronta a fórmula para o florescimento da moda como a conhecíamos: os bens de consumo, principalmente o vestuário, passam a ter uma produção mais rápida e barata.” (2009, p.38).

Não se deixando confundir os elementos que propiciaram seu surgimento, a moda não é uma consequência do consumo e das estratégias sociais utilizadas na distinção das classes na Idade Média, mas sim da decorrência de uma nova relação entre os indivíduos, e do desejo de cada um deles em se estruturar em uma classe superior, em criar uma personalidade própria e uma identidade singular. Houve uma revolução no modo como as pessoas estavam representadas, na mentalidade, nos valores sociais e na unidade dos seres, essa foi a verdadeira propulsão da moda. Gilles Lipovetsky conceitua esse surgimento ao colocar que,

“ao contrário do imperialismo dos esquemas da luta simbólica das classes, na história moderna da moda, foram os valores e as significações culturais dignificando em particular o Novo e a expressão da individualidade humana, que tornaram possíveis o nascimento e o estabelecimento do sistema da moda na Idade Média tardia; foram eles que contribuíram para desenhar, de maneira insuspeitada, as grandes etapas de seu caminho histórico” (2009,p.11).

Como foi visto, a indumentária está diretamente ligada às práticas utilizadas por uma determinada civilização em um dado momento histórico. Antes de falar em roupa como produto da moda, tem-se que entender que, através da evolução da indumentária é possível conhecer os costumes de outros povos e também observar as transformações ocorridas nas sociedades bem como avaliar o contexto econômico. As vestimentas passaram a representar um indicador de classe social e sexo dos indivíduos. O desejo de mudança impulsionou a evolução de uma indumentária antes mais estável para o sistema da moda. “A indumentária sempre foi um reflexo do gosto contemporâneo, retratando de certa forma o desenvolvimento econômico, cultural e político. A roupa diferenciada identificava camadas sociais, profissões, idades ou sexo.” (NERY, 2007, p.9).

Os povos da antiguidade deixaram a herança da distinção, as classes eram diferenciadas pelas roupas que usavam. Nery (2007) discorre sobre esse momento histórico tratando as roupas como representantes de simbologia social, afirmando que as vestimentas dos assírios e babilônios eram ricas em adornos como joias, e eram utilizadas por reis e rainhas apenas, para se diferenciarem do resto do povo, pois possuíam grande necessidade de exibição. E que os egípcios, para diferenciar suas castas, tinham como simbologia que nudez ou pouca roupa eram sinônimos de pobreza. Para Nery (2007, p. 72) o princípio da moda se inicia “[…] em meados do século XV, quando se descobriu que a vestimenta podia ser usada intencionalmente, tanto para o exibicionismo do corpo como para o seu encobrimento”.

Roche (2007) diz que, por volta do século XVIII, a necessidade de ostentar, por parte dos nobres, impulsionou o consumo eminente, essa diferenciação das demais classes funcionava como um instrumento de auto afirmação dos grupos e disputa por posição social, admiração e respeito. Os elementos moda e indumentária passaram a ser utilizados para indicar status e a importância social dos indivíduos.

“O modelo clássico de difusão da moda propõe que os estilos eram adotados pelas elites e pouco a pouco iam sendo disseminados para as classes subalternas. Essa teoria pressupõe que o vestuário era um elemento crucial da luta por status, uma tentativa de reivindicar um status mais alto do que aquele que podia ser atribuído a uma pessoa, como forma de indicar progresso em sua situação”. (CRANE, 2006, p.457).

A distinção do status dos indivíduos de uma sociedade “tende a se revelar através de certos sinais exteriores como a vestimenta, as maneiras, a linguagem, chegando mesmo a refletir-se no modo pelo qual as pessoas se distribuem no espaço geográfico” (SOUZA, 2001, p.111). Tal relação pode ser exemplificada nos dias de hoje. Roupas de marca e carros de luxo servem como diferenciadores de classe e posição de status. “O papel social das pessoas é então produzido pelo seu status e concerne aos diversos modos pelos quais esperamos que elas se comportem. Por exemplo, o status de uma esposa é acompanhado do papel de esposa […]” (BARNARD, 2003, p. 96).

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s